SAUDADE EM VERSO E PROSA

O amor verdadeiro vai muito além dos sonhos desta vida...

Meu Diário
03/08/2006 20h10
POR QUE POESIA?
Eu devia ter cerca de 13 anos de idade quando lí, pela primeira vez, uma poesia. Cursava, então, o ginasial no Liceu Muniz Freire, - palco inolvidável de tantas lembranças de um tempo mágico que certamente haverá de estar gravado, de alguma forma, em algum lugar da Eternidade-, quando, a título de obrigação escolar, fui escolhido pelo professor de português para decorar aquele imenso trabalho . E, muito entediado, comecei a recitar diariamente o poema na tentativa de gravá-lo em minha mente. O esforço não foi pequeno porque, definitivamente, decorar nunca foi meu forte. Entretanto, na medida em que avançava na tarefa , quanto mais eu lia o texto, mais sentia, mais vivenciava aquele interessante jogo de palavras rimadas que no final sempre pareciam deixar alguma mensagem. E, de repente, num átimo, quedei impressionado... Descobri que compreendia cada palavra , cada rima, cada mensagem. “Estamos em pleno mar. Abrindo as velas ao quente arfar das virações marinhas, veleiro brigue corre à flor dos mares como roçam na vaga as andorinhas...” Eu não só decorei Navio Negreiro, mas muito mais do que isso, vivenciei o drama que ali se viveu de tal forma que, não raras vezes, parecia que eu adentrava em outra esfera, em outra dimensão de vida... Mergulhei nas bibliotecas do colégio a buscar outros trabalhos do autor. Castro Alves passou , então, a ser a primeira figura literária proeminente e viva em minha mente. Devorava seus versos avidamente ao mesmo tempo que me admirava ante a sua coragem e destemor na luta contra o maior de todos os crimes que se comente contra o ser humano: a discriminação.

Pouco mais à frente descobri, numa velha estante de meu tio, uma pequena edição intitulada FAGUNDES VARELA- POESIAS.

Folheando-o passei a sentir cada página que lia, como se todas elas me fossem, talvez por um sortilégio do imponderável, velhas conhecidas... Eu as conhecia... Não as palavras, strictu sensu, mas o sentimento que elas me passavam ...



“Minh'alma é como o deserto

de dúbia areia coberto,

Batido pelo tufão;

É como a rocha isolada,

Pelas espumas banhada

dos mares na solidão”.

“Nem uma luz de esperança,

nem um sopro de bonança

Na fronte sinto passar!

Os invernos me despiram

E as ilusões que fugiram

Nunca mais hão de voltar!

“Doce brisa da noite, aura mais frouxa

Que o débil sopro de adromido infante,

Tu és quem sabe? A perfumada aragem

Das asas de ouro d!algum gênio errante



Tu és, quem sabe? A gemedora endecha

De um ente amigo que afastado chora,

E ao som das fibras do saltério ebúrneo

Conta-me as dores que padece agora! “



Foram meus poetas preferidos, sempre, e carregava comigo dentro da tosca maleta escolar e nos meus guardados de adolescente estas pérolas que me extasiavam. Seus versos me ressoavam dentro d!alma qual se tivessem vida, artífices que pareciam ter sido, de tantos e tantos amores, saudades e amarguras. Saudades e amarguras que eu sentia sem saber de onde e sem saber de quem... E foi assim que, neles inspirado , passei a ensaiar alguns arremedos de sonetos e poemas sextilhados que, entretanto, nunca terminava.

Perto de minha casa morava uma linda moça que todas as tardinhas passava rente a mim quando saia do trabalho. Era lindíssima, de corpo esguio, cabelos loiros e dois maravilhosos olhos azuis que contrastavam-se divinamente com sua tez alva, quais duas estrelas cintilantes encravadas num universo inatingível. Digna de ser a Musa inspiradora do mais terno dos amores buscara, numa tarde cinzenta e fria, esconder do mundo a desilusão que dilacerara seu coração franco e leal. Suicidara-se... Sua busca pela riqueza, que sempre dizia ser seu objetivo, era apenas uma forma da tímida criança esconder sua paixão proibida... Seu sentimento puro, o amor verdadeiro que doava, fora desprezado pelo orgulho insensato e sua simplicidade e pureza d!alma foram achincalhadas pelo egoísmo ingrato. Entristecido, com o peito opresso, sem ainda entender direito os dramas morais e as derrocadas da alma em sua caminhada na busca da perfeição, escrevi meu primeiro soneto:



RITINHA



Era mocinha fagueira,

a linda Ritinha que um dia,

deitada junto da esteira,

mil riquezas pressentia.

-Amor!? No fundo besteira!

-Dinheiro no banco, dizia-

é paixão prá vida inteira

casamento em que se fia.



Nunca mais eu vi Ritinha,

até ontem de tardinha,

quando vinha o rabecão.



era a moça sonhadora,

que com veneno se fora,

Sozinha na solidão...



Foi a primeira lágrima que derramei por uma mulher...Uma lágrima sentida, verdadeira, apaixonada por meu primeiro e único amor platônico...



E continuei daí para frente naqueles ensaios, embora sentindo que faltava alguma coisa neles. Só mais tarde descobri que faltava, na verdade, a emoção do sentimento, a vivência das decepções que o destino nos reserva. Em suma faltava neles a alma que dá vida à matéria...

O tempo passou... Vieram os amores, os romances que a vida nos apresenta. Surgiram as paixões e com elas a experiência da dor de ilusões perdidas. Conheci a saudade... Saudade , diria eu muito mais tarde, é como a dor inclemente, só sabe mesmo é quem sente...

Eu tive um professor que lecionava Ciências. Era um professor renomado na cidade e dentista dos mais competentes. Dr. Athayr Cagnin...

Certa vez, folheando um jornal ou uma revista ou mesmo um livro, não me lembro bem, deparei com este soneto que achei simplesmente genial:



“A boa poesia, como a lua,

que tanta coisa evoca e nada diz,

fala baixinho: apenas insinua

de maneira bem simples e feliz.


Como um vôo de pássaro flutua

Na imagem leve, de intenções sutis,

E, voz dorida e terna, perpetua

Tudo o que não se teve e que se quis.



Amarga queixa no íntimo escondida,

Ela deve ser sempre comedida:

Não pode a dor extravasar em pranto!



Nunca apareça a chaga a arder no peito!

Que o poeta chore , sim! Mas de tal jeito

Que o seu soluço mais pareça um canto.”



Fiquei maravilhado com a descoberta porque jamais poderia imaginar em minha existência de adolescente que o meu professor de Ciências pudesse escrever coisas tão lindas , em poucas linhas e tão fáceis de serem entendidas. Daí para frente, não mais hesitei. Cada amor era uma musa, cada musa era um poema, e até hoje, passados que são tantos anos de tão ditosos tempos, nunca mais parei de tentar extravasar meus sentimentos através da poesia, embora jamais tenha me considerado um poeta.

De todos escolhi estes que durante muitos anos ficaram guardados nas gavetas e nas minhas pastas particulares. São poemas antigos, de escola antiga, rimas e versos que hoje não se usam mais, por certo dirão muitos. É verdade. Não os leio por ai. Vejo outro tipo de poesia, lindas, delicadas e sensíveis. São muitas. Entretanto, quis deixar guardado, mais por uma questão de satisfação pessoal, uma fase em que o destino me foi risonho, e me proporcionou os mais lindos momentos de amor que se pode ter nesta vida. Amor que, afinal, outra coisa não é do que o maior ensaio para o grande Poema da Vida Maior...

Publicado por Nelson de Medeiros em 03/08/2006 às 20h10
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